A Inteligência Artificial (IA) está acelerando uma verdadeira revolução silenciosa nos bastidores da logística global. Do transporte marítimo à última milha, a tecnologia tem ampliado a capacidade de prever, planejar e otimizar rotas e fluxos com uma precisão nunca antes imaginada. 

No setor ferroviário, historicamente considerado conservador em suas inovações, a IA começa a ganhar espaço como ferramenta estratégica para modernizar processos e ampliar a competitividade do modal.

No Brasil, país em que as ferrovias ainda representam uma fração tímida do transporte de cargas e passageiros, a aplicação de soluções baseadas em IA promete mudar esse cenário. 

Para entender os caminhos dessa transformação, conversamos com Alain Esteve, engenheiro eletricista e mestre em Engenharia de Transportes, atualmente diretor executivo da DB E&C no Brasil e palestrante da NT Expo 2025.

Leia mais sobre os impactos da tecnologia no segmento!

Como a IA está sendo usada no setor ferroviário?

Segundo Esteve, o uso da IA no setor ferroviário já é realidade em diversas partes do mundo, com aplicações que vão desde a manutenção preditiva até o aprimoramento da experiência do usuário.

“Em geral, a IA é usada para otimizar processos no setor ferroviário, principalmente em áreas como manutenção preditiva, gerenciamento de tráfego e otimização de rotas, monitoramento de segurança e experiência do usuário”, explica.

Na Europa, a Deutsche Bahn (DB) tem investido em soluções de visão computacional e algoritmos de aprendizado de máquina para tornar as operações mais ágeis e seguras. 

Um exemplo é o Cam.TrainCheck, um sistema compacto que identifica trens pelo número UIC conforme entram e saem de estações ou instalações industriais.

“Esse tipo de tecnologia é extremamente útil em locais onde não é possível instalar grandes estruturas para leitura e controle de tráfego”, afirma o executivo.

Outro destaque é o uso de IA na gestão de tráfego e em situações de incidentes, com ferramentas que ajudam controladores a tomarem decisões rápidas e assertivas após alguma perturbação na malha ferroviária.

“Na Alemanha, já usamos inteligência artificial para apoiar a atuação automática dos trens em situações inseguras, o que aumenta a segurança e reduz o tempo de resposta”, relata Esteve.

O uso da Inteligência Artificial no segmento ferroviário brasileiro

No Brasil, embora o uso da IA ainda esteja em estágios iniciais, já há sinais promissores de avanço. 

O exemplo mais difundido até agora está na área de transporte de passageiros, com a aplicação de câmeras para contagem automatizada em sistemas como o VLT do Rio de Janeiro.

“Esses sistemas utilizam algoritmos para identificação e contagem de passageiros, e isso permite uma melhor gestão da capacidade e do fluxo, especialmente em horários de pico”, explica.

Além disso, pesquisas brasileiras também estão contribuindo com soluções robustas, como o trabalho dos pesquisadores Rayson Laroca, Alessander Cidral Boslooper e David Menotti, que desenvolveram um modelo de identificação e contagem de vagões baseado em visão computacional e deep learning.

“Essa aplicação, publicada recentemente, mostra que temos capacidade técnica no país para propor soluções inovadoras e eficientes”, destaca Esteve.

Desafios a serem superados para a IA nos trilhos

Apesar dos avanços, Esteve aponta que ainda há uma série de obstáculos a serem enfrentados para que a IA se consolide no setor ferroviário nacional.

“A eficácia da IA depende em grande parte da qualidade e disponibilidade dos dados. No setor ferroviário, coletar dados precisos e integrá-los aos sistemas existentes pode ser um desafio enorme”, alerta.

Outro ponto crítico é a segurança cibernética. À medida que mais dispositivos e sistemas se conectam à rede, aumenta-se também a exposição a ataques.

“A digitalização amplia a superfície de ataque. Proteger essa infraestrutura crítica é essencial”, adverte.

A escalabilidade das soluções e a resistência à mudança cultural dentro das organizações ferroviárias também são entraves importantes.

“É preciso treinamento e sensibilização. Muitas vezes a barreira não é tecnológica, mas cultural”, diz.

Oportunidades no horizonte do segmento

Se os desafios são grandes, as oportunidades também são. Esteve acredita que a IA poderá transformar a forma como operamos e planejamos o sistema ferroviário.

“A manutenção preditiva, por exemplo, permite antecipar falhas, o que reduz custos operacionais e evita interrupções inesperadas”, exemplifica.

Outro ganho expressivo está na otimização do tráfego ferroviário, com IA analisando dados em tempo real para melhorar a eficiência e a pontualidade.

“Estamos falando de decisões mais rápidas, malhas mais fluidas e trens mais pontuais”, resume.

Também há espaço para melhorar a segurança e a experiência dos passageiros, com uso de sistemas inteligentes de vigilância e comunicação personalizada.

“A IA permite detectar comportamentos anormais em estações e vagões, e também possibilita serviços mais alinhados às necessidades dos usuários”, conclui.

Um setor pronto para o futuro?

Com o avanço de projetos piloto e o amadurecimento de pesquisas aplicadas, o Brasil começa a trilhar seus próprios caminhos rumo a uma ferrovia mais inteligente. 

A expectativa é que, nos próximos anos, os investimentos em IA cresçam à medida que os benefícios se tornem mais evidentes — e inevitáveis.

A jornada está apenas começando, mas o destino aponta para um futuro onde a tecnologia e os trilhos caminham lado a lado, em sinergia.

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